O “Melhor do Mundo” com suas belas arrancadas, dribles e passes precisos, finalmente deu um presente não só aos argentinos, mas à própria ideia de competição entre seleções nacionais.
Em 2010, numa cerimônia assistida em diversos rincões do planeta, Messi disputou a Bola de Ouro com dois companheiros do fantástico Barcelona: Xavi e Iniesta.
E o "E.T.", o "jogador de Play Station" (termos do técnico francês Arsene Wenger), foi eleito o melhor. Um fato longe de gerar qualquer polêmica... isso se nos pautarmos nas suas constantes excepcionais apresentações na equipe catalã.
Agora, se lembrarmos do quanto jogam Xavi e Iniesta no próprio Barça e, depois, se somarmos ao quanto gastaram a bola na Copa do Mundo 2010 pela seleção espanhola - principalmente Iniesta na final contra os holandeses - a coisa muda de figura.
E muda ainda mais, ao não podermos negar o decepcionante desempenho de Messi nesse mesmo mundial.
Assim, surgia perguntas: A decisão da FIFA, em ano de Copa, concedendo um título de “Melhor do Mundo” a um jogador que passa apagado pelo mundial seria a maior mostra de que estamos vivendo o processo de extinção das disputas entre selecionados nacionais?
As Copas que tanto impulsionaram paixões e povoam as memórias de amantes do futebol nos mais variados lugares estariam em colapso?
O historiador Eric Hobsbawm, no livro “Globalização, Democracia e Terrorismo” (2007), analisou os reflexos da economia global contemporânea no futebol e percebeu que o esporte que se estruturou por todo o século passado a partir de uma dupla identificação - a local (os clubes) e a nacional (as seleções) – na virada para o XXI, teve esses enlaces com o sentimento popular desgastados. Os negócios empresariais, de umas poucas empresas de marcas globais, tornavam-se incompatíveis com o poder pulverizado entre clubes e seleções espalhados pelo mundo.
Em outras palavras, no século XXI, diante do interesse do mercado, o futebol deveria funcionar na mesma lógica aplicada a outros setores das sociedades: o local deveria ser superado pelo global.
Campeonatos nacionais e continentais seriam substituídos em importância por superligas, com meia dúzia de supertimes da Europa, verdadeiras seleções do mundo - notadamente, compostas por jogadores da América e da África - disputando torneios internacionais entre si. (Alguém duvida que Real Madri, Milan, Barcelona, Inter de Milão, Manchester United, Chelsea, dão preferência à Copa dos Campeões em detrimento do campeonato italiano, espanhol ou inglês?).
Nessa lógica, perderiam os apaixonados por seus clubes; seja no Brasil (lembremos as quedas de Palmeiras, Corinthians, Fluminense, Grêmio, Botafogo, e tantos outros); seja na Argentina (o River - sem querer abusar do trocadilho enfame); seja na África, com tantos craques e sem conseguir elevar seu próprio futebol no cenário mundial; seja até mesmo na Europa, com monótonos campeonatos nacionais de 20 times em que todos sabem quem serão os campeões e os vices.
Contudo, a paixão futebol que queima nos mais variados corações e que tem o combustível na identificação clubística ou nacional, resiste.
E é por isso que Leonel Messi, nessa quarta-feira, na Copa América, fez bem não apenas à seleção argentina que ganhou de 3 a 0 da equipe da Costa-Rica. Fez bem ao futebol como um todo.
A camisa da AFA, de tantas glórias, em tempos de globalização, teve a honra de uma apresentação de um Messi do Barça: de um craque que dá 63 passes e acerta 59 (um deles realizado quando se encontrava caído ao solo – e tão preciso quanto os demais).
Pode-se dizer que a pressão argentina - da torcida, da imprensa, do zagueiro Burdisso - sobre o craque “catalão”, valeu para todos nós. Valeu para mostrar que o futebol, como a vida, ainda não é (e jamais será!) apenas feita por milhões de dólares.
Isso explica o tom efusivo do site do Diário Esportivo Olé, após o jogo: Así te quiero ver - Por fin apareció Messi, por fin apareció la Selección.
Por fim, apareceu o futebol!