quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O Periquito cordial, Walt Disney e o Porco neoliberal

Com Crefisa, o Palmeiras oficializou um mascote que parece bem combinar com esses tempos temerosos...

Touro de Wall Street, Charging Bull - o maior
símbolo de poder da bolsa de valores de Nova Iorque,
a representação de alta das ações na bolsa de valores.
Disponível em: https://de.wikipedia.org/
wiki/Datei:Bronzefigur_Charging_Bull.jpg
Gobatto, novo mascote de um Palmeiras de Paulo Nobre
(trader em Bolsas de Valores) e da parceira Crefisa
(empresa de crédito, financiamento e investimento). 
http://torcedores.com/noticias/2016/11/voce-viu-
palmeiras-lanca-porco-como-novo-mascote-e-apresenta-gobatto





























Antes, um pouquinho de história...

“É mais fácil a cobra fumar que o Brasil entrar na Guerra”. Esta frase, creditada a muitos, era recorrente naqueles tempos de 2ª Guerra Mundial.

Mas não é que, mesmo aos trancos e barrancos, brasileiros foram mandados para lá?
Através da Força Expedicionária Brasileira, os chamados pracinhas foram parar naquela gelada, literalmente, pois vivia-se o rigoroso inverno europeu.

Já eram fins de 1944 e também momentos finais da Grande Guerra. E ao chegar, o comando da FEB notou que seus aliados estadunidenses – que passavam a ser a grande referência – possuíam uniformes com um distintivo colorido. 
Distintivo da FEB. Disponivel em: https://pt.wikipedia.org/wiki/
Ficheiro:Brazilian_Expeditionary_Forces_insignia_
(smoking_snake).svg

Assim, as vestes brasileiras, apesar de sua precariedade, tinham também que ter seu escudo! E nada poderia ser mais interessante que uma cobra, uma cobra que estava fumando em plena 2ª Guerra Mundial!

Desenhou-se um réptil que, contrariando a lógica, não só fumava como tinha um olhar que não chegava a constranger, a oprimir. Pode-se dizer que era uma espécie de simpático brasileiro (ou “Homem Cordial”, como disse Sergio Buarque de Holanda), como uma cobra que ao invés de expelir veneno, fumava um cachimbo (da paz?), e que ironicamente tinha ido à luta no inóspito território europeu, em plena Guerra, mesmo sem grandes recursos (seria o cachimbo uma arma?).

Um símbolo, é bom lembrar, que não foi substituído pela versão criada e sugerida à FEB por Walt Disney em pessoa e veiculado pelo jornal O Globo, em 22 de fevereiro de 1945 – em mais uma das ações da “Política da boa vizinhança”, do governos dos EUA em relação à América Latina, e, em especial, ao Brasil.
A "concepção magistral" de Walt Disney, segundo O Globo. 
Disponíevel em: http://henriquemppfeb.blogspot.com.br/
2011/02/cobra-fumando-walt-disney-feb_22.htm.

Uma recusa que pareceu óbvia à FEB, pois a cobra de Disney estava muito mais para um herói indestrutível ianque, do tipo Charles Bronson, que para um Macunaíma ou um Mazaropi. Estes, típicos (anti)heróis tupiniquins, tão falhos e tão cativantes ao mesmo tempo.

Enfim, naquele momento, a FEB com a sua “humilde” cobra conseguiu preservar o espírito antibelicista, dialógico, ambíguo que marca a ideia do ser brasileiro. Assim, deixava-se de lado a cobra de Walt Disney, que era evidentemente bélica demais para nossa cultura. 



Já, domingo passado...


Gobatto e o Periquito, no Allianz Parque (6/11/16). 
Disponíevel em: http://www.palmeiras.com.br/news/2016/11/07/palmeiras-oficializa-porco-como-mascote-e-faz-apresentacao-a-torcida-no-estadio.shtml#.WCHlri0rKM8

Apesar da passagem dos anos, a tendência iniciada pelo O Globo, lá em 1945, parece se fazer presente.

É o caso da Sociedade Esportiva Palmeiras. Seu tradicional mascote, o Periquito, agora conta com um parceiro oficializado no último domingo, o porco Gobatto.

Que ironia... o clube que um dia teve que provar, à custa de sua própria existência, sua brasilidade (alterando o próprio nome, escrevendo hino, reforçando o mascote), agora assume contornos parecidos com o proposto por Walt Disney para a FEB, há quase um século atrás.

Mais irônico ainda é lembrar que, em 1942, o Palestra foi forçado a se tornar Palmeiras devido à própria 2ª Guerra e à aliança que Estados Unidos e Brasil haviam acabado de costurar e que culminou com a declaração de guerra contra a Itália e o envio das tropas brasileiras para o conflito.

Aqui não vai nenhuma crítica ao Porco, cantado e reverenciado pela torcida desde a década de 1980 em resposta à pecha imposta pelos adversários, derivada do preconceito sofrido pela colônia italiana desde sua chegada à São Paulo, na virada do século XIX para o XX.

A questão mora na evidente característica agressiva do personagem Gobatto (referência a um antigo diretor de marketing do Palmeiras, da década de 1980).

Enquanto o Periquito, mesmo que reestilizado a pouco, sempre esbanjou simpatia, Gobatto traz características bem diferentes.

A ave que tornou-se mascote, nasceu do verde predominante da antiga camisa palestrina, ainda em 1917, e da multidão deles que se fazem presentes nas Perdizes - bairro que abriga o Palestra Itália, agora, Allianz Parque. Periquito que sempre fez questão de mostrar-se amigável e astucioso (bom de bola, principalmente).

Por outro lado, o novo símbolo, nem um porco é. Na verdade, trata-se de um Javali. O bicho traz altura, dentes e músculos superavantajados. A cara é de poucos amigos. Rigidez o resume. O contraste é nítido em relação a toda a história do clube que através do seu hino sempre quis mostrar que “sabe ser brasileiro”. 

O que fica são questões, como: o que farão com a astúcia do eterno e brasileiríssimo Periquito?

E, principalmente:

Quem é mais agressivo: a torcida uniformizada, o mascote ou os negócios que envolvem o futebol?








O Periquito, trajetória de meados do século XX ao início do XXI. Disponível em: http://www.encontraspbarrafunda.com/barra-funda/sociedade-esportiva-palmeiras.shtml



Para saber mais:


Anais do X encontro do CELSUL. Guimarães & Venturini.

SALUM, A. O. Zé Carioca vai à Guerra. São Paulo, 1996. Dissertação (Mestrado em História) Pontifícia Universidade Católica.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Carlos Alberto Torres, futebol-arte e seus usos no Brasil dos títulos e dos golpes

Torres em 2011. Disponível em https://
pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Torres
Foi-se um personagem marcante da nossa história, o craque Carlos Alberto Torres.

Para muitos o maior lateral direito de todos os tempos...

Para meu finado pai, o segundo. Pois, sempre que ouvia isso meu velho retrucava, afirmando exaltado que Djalma Santos foi insuperável.

Mas, isso não é nada demais. É muito válido se reverenciar a competência, a dedicação, a habilidade e a precisão de Carlos Alberto Torres.

Sobretudo, prestar as honras ao craque “Capita” que, segundo o outro craque Gerson - afirmação feita com olhos embargados - foi eleito na época pelos próprios jogadores da Seleção para colocar a tarja e capitanear aquele esquadrão mitológico, tricampeão em 1970!

A Seleção de 1970. Disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Brazil_national_football_team
Um autêntico líder, “naturalmente” eleito pelos seus. Algo que já não corresponde a nossa realidade. Reconhecimento que nem mesmo encontramos em nosso atual Chefe de Estado.


Aliás, por falar em Chefe de Estado, futebol, Tri de 70 e Carlos Alberto Torres, vale lembrar o golaço que marcou o Capita, fechando a final contra a Itália e consagrando a máxima que relaciona Brasil à Futebol-Arte.

Aquilo mesmo que disse Hobsbawm no seu famoso Era dos Extremos: "e quem poderá negar a condição de arte ao futebol brasileiro tricampeão?" - se não exatamente com estas palavras, foi sem dúvida com a mesma ideia.

Golaço! Troca de passes: Clodoaldo, Pelé, Gerson, Clodoaldo e seus dribles desconcertantes, Rivelino, Jairzinho, Pelé e a olhadinha marota com passe açucarado e a patada certeira de Carlos Alberto Torres!






Infelizmente, é automático também lembrar o quanto os ditadores usam e, no caso, o quanto deu sorte o general "presidente" da época, não é mesmo?


Justamente, esse gol - o ápice da Seleção Brasileira e de Carlos Alberto Torres - foi chamado de "Gol do Presidente", já que Emílio Garrastazu Médici, no auge da ditadura civil-militar, havia dito que a final da Copa seria um 4 a 1 para o Brasil.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Golpe, PEC 241, Metrópolis e o futuro pessimista

Estava claro que em poucas horas a notícia da aprovação da PEC 241 chegaria...

Outro dia difícil.

Mais um dia em que nem o futebol me entusiasmava. Temer é o que basta!

Em épocas de neoliberalismo de uma eficácia maior que a do Barcelona de Guardiola em posse de bola, a depressão vence de goleada.

Ver, no máximo, uma França bater a Holanda por um mísero gol não empolgava. Nunca seria suficiente para conter a insistente frase “Vamos tirar o Brasil do vermelho”, de parlamentares nível verde-amarelo CBF.

Assim, procurei num canto esquecido do meu peito minha cinefilia.

Lembrei-me dos muitos filmes que me prometi assistir, mas a falta de tempo e o amor pelo futebol não deixaram.

Busquei via Youtube um clássico do expressionismo alemão: Metrópolis.

O ditador-empresário de Metrópolis,
Jho Fredersen, interpretado por Alfred Abel 
(tvtropes.org).
Michel Temer (commons.wikimedia.com),
de vice à presidente do Brasil (semelhanças?).



Um filme de 1927, de Fritz Lang (o gênio do cinema que recusou trabalhar para Hitler).

Trama que se passa num 2026 dominado por um autocrata, que governa única e exclusivamente para o capital, em benefício de uma elite que se esbalda nas regalias do moderno, em detrimento dos trabalhadores - os que realmente constroem e mantém aquela sociedade - e que. por sua vez, vivem literalmente 
no subsolo.

Obra que serviu de inspiração para “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, para os vários e vários filmes de ficção que Hollywood criou por todo o século XX e XXI, para o universo Pop (de Beyoncé e Lady Gaga, por exemplo).

Crítica ao totalitarismo e, ao mesmo tempo, ao posicionamento judeu e ao messianismo. Sem esquecer de Maria e a figura ambígua do feminino.

Enfim, um filme mudo, em preto e branco, de 1927, futurista e muito atual...


Para saber mais sobre “Metrópolis”:



O filme: